Introdução

Tokyo, essencialmente Tokyo.

Destino quase sempre presente na ambição de um profissional de sonhos, como eu, pelintra que passa uma vida a trabalhar e a juntar os euros sofridos para ir trilhando o mundo, devagarinho, absorvendo as memórias, sorrisos, expressões, vozes e silêncios, ali e acolá, turismo despido onde não há lugar a excursões de bandeirinha nem palmeiras em resorts de luxo.

Tokyo. Sonho sonhado mas até à data posto de parte por passar sempre a mensagem de financeiramente inatingível. Tokyo. Quimera finalmente cumprida, após desmistificação, e agasalhada no meu coração.

Viagem efectuada entre 4/10/2006 e 12/10/2006.

Diferença horária: +9h no Japão

Viajantes: eu e 2 amigos

Valeu a pena? Sim. Vale sempre a pena. Que se lixe o sofá desbotado a precisar de reforma urgente!

finanças

Dispúnhamos de um plafond máximo de €2000, já com tudo incluído (avião e restantes transportes, alimentação, dormidas, lembranças, etc), mas tínhamos como objectivo gastar cerca de €1500, o que acabou por acontecer, mais coisa menos coisa.

As despesas iniciais, efectuadas ainda em Lisboa, passaram pela compra da passagem de avião que nos custou €892 (www.ba.com) e pelo passe de comboio (JRPass, adquirido na Agência Frontia – tel 213528945) por €225. Este passe de comboio não se encontra à venda no Japão, pelo que deve ser adquirido em Lisboa e caso se pretendam visitar outras cidades para além de Tokyo. É que há que levar em consideração que uma passagem de comboio de Tokyo para Osaka, por exemplo, pode chegar a custar €200 e se o objectivo é visitar outros locais como Kyoto ou Nikko, a aquisição do JRPass é fundamental, dados os custos invulgares dos transportes.

a viagem começa assim

As 2 horas e meia até Londres mais as 12 horas até Tokyo fizeram com que chegássemos ao Japão (aeroporto de Narita) dia 5/10, um dia depois, por volta do meio-dia e completamente escangalhados do sono.

Assim que recolhemos as maletas, deparámo-nos logo com a grande dificuldade desta viagem, a comunicação com o povo japonês. O inglês, quando falado (casos invulgares e de tão excepcionais almeja dizer parabéns e beijá-los com especial gratidão), é quase imperceptível, gerando um cansaço invulgar na demanda com o entendimento. London, por exemplo, diz-se Rondóm em japonês-inglês. Um deslumbramento, portanto. Assim, nesta viagem tivemos logo que contar com 10% de tempo efectivo em lost in translation.

Por entre as dificuldades da compreensão-tradução e ainda no aeroporto de Narita, trocámos, no Exchange Office, o nosso “pré-passe” pelo efectivo JRPass e ainda reservámos os bilhetes de comboio para a nossa viagem para Kyoto (Narita -> Tokyo e Tokyo - > Kyoto) que nos consumiria quase toda a tarde de dia 5 nos fabulosos comboios-bala japoneses, com velocidades na ordem dos 350km/h. Normalmente para viagens com uma duração superior a 1 hora é necessário efectuar uma reserva prévia no comboio.

O objectivo inicial da viagem era visitar, por esta ordem, Kyoto, Osaka, Hirochima, Nikko e Tokyo mas dado que não efectuámos nenhuma reserva com a devida antecedência para Hirochima e pelo facto de na data apontada para a visita todos os hotéis estarem com uma ocupação de 100%, tivemos que abdicar dessa cidade, com muita pena nossa.

Por entre a espera do “Narita-Express”, que nos levaria a Tokyo em aproximadamente 1 hora, ainda comprámos umas embalagens de sushi e umas garrafinhas de chá verde gelado que fariam as nossas delícias no trajecto até à capital japonesa.

Eram aproximadamente 5 da tarde quando chegámos a Kyoto, antiga capital do Japão nos finais do século VIII, que ainda mantém muitas das tradições históricas japonesas e inúmeros templos encantados.

As aprendizas de gueixas são um marco de Kyoto e podem ser contratadas para entreter clientes abastados com danças e cantares tradicionais. Esta profissão, que data do século XVII, está em rápido declínio pois a verdadeira natureza deste ofício está a ser substituída e confundida por verdadeiras profissionais do sexo, devidamente trajadas de gueixas. Encontrámos algumas destas moças com a carinha toda pintada de branco e as beiçolas de vermelho sangue. Um mimo.

A estação ferroviária de Kyoto é um colosso arquitectónico e tivemos sérias dificuldades em abandonar o olhar desta imponente construção. No posto de turismo da estação (quase todas as estações japonesas são grandes centros comerciais, estilo el-corte inglês) elucidámo-nos quanto à localização da nossa estadia - o Hotel Sancrane (qualquer que seja o hotel escolhido é necessário efectuar reserva com bastante antecedência, uma vez que Kyoto é um destino muito procurado pelos japoneses para realizarem as suas orações) e ficámos a saber que o mesmo ficava a 20 minutos a pé da estação.

O hotel revelou-se uma óptima escolha pois o quarto, para além dos apetrechos já mais que esperados (tv, dvd, rádio, frigorífico, ar condicionado) ainda tinha uma fabulosa sanita electrónica com variadíssimos botões, que passam pela simulação do som da descarga do autoclismo, pressão da água para levar o traseiro e temperatura da mesma. A tampa da sanita também cai com uma suavidade aflitiva. O hotel ainda oferece escova e pasta de dentes, lâminas de barbear, champô, amaciador, gel de duche, pijama japonês e chinelos. Pagámos por um quarto triplo, 15000Y/noite (cerca de €100, o que deu uma média de €33.5 /pessoa). O pequeno almoço é pago à parte e um pouco carote, convenhamos (1050Y).

Por detrás da central e longa avenida Kawaramachi, numa das ruelas de um bairro animadíssimo repleto de bares, restaurantes e discotecas, escolhemos um restaurante típico para jantar. O facto de nenhum nativo articular uma única palavra em inglês não nos impediu de nos desenrascarmos, ou não fossemos nós uns portugueses profissionais. Depois de termos que nos descalçar para nos acomodarmos numa das almofadas que servem de apoio à mesa rasa de refeição, tivemos o primeiro e verdadeiro contacto com a realidade japonesa, jantando felizes e curiosamente observados por muitos olhares em bico. Arroz, uma travessa com diversas iguarias de sushi, sachimi e outros (ainda hoje me debruço a pensar que raio é que era aquilo que enfardámos com brutal estupefacção) e chá verde, tudo isto por uns fantásticos €7. O chá verde é sempre oferta da casa e a gorjeta não é aceite pelos japoneses. Esquisito é o facto de depois de deixarmos cerca de €1 de gorjeta em cima da mesa e fazermo-nos à estrada, termos à perna o empregado, esbaforido e eufórico, a vir ao nosso encontro e entregar-nos aquilo que pensou termos esquecido – o tal euro da gorjeta. Olha que fixe!
O japonês inicia o dia com uma malga de sopa e vegetais, acompanhada de um bom naco de arroz e muito chá verde. Epá que aquilo até pode ser muito bom mas o que eu queria mesmo era uma torrada, uma sandoca de queijo ou mesmo um pão sem nada, pronto, mas um pãozinho, por amor de deus, e um café. O café é bebido gelado com leite (com cubos de gelo e tudo e até é bastante agradável) mas como refresco e não particularmente ao pequeno-almoço. Resumindo e baralhando, não há pastelarias no Japão. Existem os americanos starbucks, onde se paga excessivamente bem por um café daqueles gigantes e um bolinho enfezado e muito americanizado.

kyoto, dia 6

Dia 6, por entre uma chuva molha-tolos que não teimava a cessar e que nos obrigou a comprar 3 chapéus-de-chuva transparentes (todos os nativos têm chapéus-de-chuva iguais e transparentes), perdemo-nos pelos principais templos e magníficos jardins de Kyoto. De destacar o lendário Pavilhão Dourado, o Castelo de Nijo e o jardim de bambu. Almoçámos e jantámos num restaurante japonês, pois claro, e ainda comprámos alguns suvenirs (as bonecas japonesas são lindíssimas, caracterizando o artesanato em Kyoto e ainda agora dou estaladas a mim própria por só ter trazido uma para a minha mãe e zero bonecas para mim) para trazermos para casa.







E lá chegámos ao hotel mais mortos do que vivos.

de Osaka a Tokyo, dia 7

Deixámos as maletas guardadas na estação e partimos à descoberta de Osaka, apenas a 30 minutos de comboio de Kyoto. Osaka é uma cidade extravagante de arquitectura pós-moderna e grandiosos centros comerciais. Foi num deles que nos rendemos à tecnologia japonesa, sérios anos à nossa frente. Os telemóveis com tv, bem como os portáteis vaio, fizeram as minhas delícias e aqui nos deixámos ficar quase toda uma manhã a absorver, arrebatados, as últimas novidades tecnológicas.
Almoçámos num restaurante típico onde cada umas das mesas possui uma chapa quente com uma sorridente menina a preparar um estranho grelhado com couves e camarões (vide foto), untadíssimo com um molho de caramelo que não liga nada bem com a parte salgada. Uma vez que em todos os restaurantes existem fotografias das refeições (graças a deus pois, caso contrário, tínhamos comido era raspas), um gajo só tem que apontar para aquilo que deseja comer e às vezes lá é enganado, como foi neste caso. Nem tudo são rosas, como diria a minha avó.

Subimos ao escandaloso e futurista observatório do jardim suspenso, erguido a 150 metros do chão, e no 39º andar perdemo-nos numa vista soberba sobre Osaka, bebericando um café e deleitando-nos com a maravilhosa arquitectura, uma das minhas inúmeras paixões. Welcome to the sky.

Depois de um passeio descontraído pelo centro de Osaka, rumámos a Kyoto para lhe dizer adeus, apanhar as maletas e partir à descoberta da essência desta viagem – Tokyo.

Uma embalagem de sushi, 1 garrafinha de chá verde e 3 horas depois, numa elegantíssima viagem num dos comboios-bala japoneses, chegávamos a Tokyo para a consumirmos com especial apetite. Apanhámos o metro e em 45 minutos estávamos no nosso Hostel – New Koyo.

Comparativamente ao hotel em Kyoto, este hostel deixa muito a desejar. É muito central e efectivamente barato (€18) mas é demasiado ao estilo japonês (ryokan) para o meu gosto. Os quartos são mínimos e possuem um colchão que há noite é desdobrado ao longo da esteira para que o espaço passe a ser efectivamente para dormir e pela manhã há que voltar a dobrar a cama para se usufruir, neste caso, de uma sala de estar. Em qualquer que seja o caso, os usufrutuários têm de deixar sempre os sapatos à porta. Os japoneses são muito asseados, demasiado até. Soalho que seja revestido a esteira pede sempre um peúgo lavadinho e chanato à porta da rua (templos, restaurantes, quartos, etc). Infelizmente, que nunca me hei-de habituar à coisa, as casas de banho também o são ao estilo japonês, ou seja, tudo ao molho e fé em deus. Existem uma série de duches onde as pessoas (homens para um lado, mulheres para outro, claro) estão sentadas nuns banquinhos a efectuarem a sua higiene. Depois de cabelos lavados, corpos bem ensaboados e tudo muito bem enxaguado na zona dos duches, existe um banho de emersão colectivo, um género de um tanque com chafariz de água abundante e a escaldar, onde todo o mundo descomprime, sem pudores, numa nudez descomprometida. É estranho, no mínimo.

Existem milhares de corvos na cidade. Foi a acordar em sobressalto com os gritos sonantes destes bichos que passei a minha primeira noite em Tokyo.

buda e os néon's, dia 8

Às 7 da manhã estava tudo a acordar e a tomar duche japonês. O Manel não queria deixar o Japão sem antes lhe conhecer um Buda. Um pelo menos, suplicou. Em Nara, perto de Kyoto, existe o maior Buda japonês que, dada a falta de tempo, não pode ser visitado. E porque ir ao Japão sem visitar um Buda é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa (eu por acaso quando fui a Roma não tive tempo para isso mas sou a favor de que se cumpram as tradições), agendámos a manhã para o efeito.

A 1 hora de Tokyo, na cidade costeira de Kamakura, fomos à descoberta do 2º maior Buda do Japão, com 13,5 m e que pode ser visitado por dentro. A cidade é muito pitoresca, com diversos templos, lojas de artesanato e antiguidades. Paralelamente à parte cultural, encontrámos uma praia cheia de surfistas. Cool!

De regresso à capital e já por entre a tarde soalheira, deambulámos pela metrópole num passeio pedestre que, ainda antes de nos presentear com umas enormes e abundantes bolhas nos pés, nos permitiu conhecer o palácio imperial, a fantástica torre de Tokyo e ainda o bairro de Sinjuku, iluminado pelos inúmeros néon’s que tanto caracterizam esta cidade.








nikko, dia 9

A 150 km a norte de Tokyo encontra-se a zona de Nikko. “Nunca digas que viste o que é belo se não foste a Nikko”, reza o slogan turístico e ao qual não ousámos discordar. São necessários apanhar 2 comboios para chegar a esta belíssima região montanhosa e perdemos, ou neste caso ganhámos, 2 horas para cada lado em transferes.

Faz frio em Nikko e assim que chegámos não nos demorámos a vestir os casacos. Existem imensas atracões para visitar nesta zona e pelo que nos foi possível decifrar da conversa com a moça das informações turísticas da região (coitada da moça que até suou para se conseguir fazer entender), o ideal é aqui passar 3 dias efectuando diversos passeios pelas montanhas e contemplar, com a devida serenidade que o momento exige, os jardins botânicos, os museus, as lagoas e cascatas, o parque natural em si e os mausoléus-santuários mais esplendorosos e imponentes do Japão.

Mas como o tempo é dinheiro e este, infelizmente, não abunda em carteira portuguesa (na nossa, pelo menos), tivemos que nos render às evidências e dispor de apenas 5 horas para visitar a nossa versão compacta de Nikko. E com o mapa uma das mãos e umas indicações atabalhoadas num inglês sofrível na outra, lá nos fizemos ao caminho para conhecer os marcos mais importantes.

A meia hora de caminho desde a estação de comboios até à ponte Shinkyo, por entre as inúmeras lojas de artesanato e restaurantes japoneses, fez-nos suar em catadupa mas o deslumbramento da ponte em madeira pintada de vermelho que atravessa o rio Daiya e que inicia o magnífico passeio até aos templos, alentou-nos a alma e prosseguímos caminho.
Já no santuário Tosho-gu encontrámos a famosa escultura dos 3 macacos, o estábulo sagrado, e outras assombrosas decorações do templo, ornamentadas por fabulosas esculturas coloridas de samurais, flores, dragões e animais. Visitámos também o templo Rinno-ji e o santuário Futara-san que fizeram as nossas delícias.

Acabámos o dia a comprar uns quimonos japoneses, numa das inúmeras lojinhas de artesanato de Nikko, e foi com radiosa alegria que regressámos a Tokyo para encerrar mais um dia de um sonho tornado realidade.

os últimos cartuchos

Os últimos cartuchos desta viagem foram queimados a passear nos principais bairros de Tokyo e a visitar o zoo da cidade, com especial ênfase para o urso panda.

No bairro de Akihabara perdemo-nos nas infinitas lojas de material electrónico e foi lá que encontrámos um restaurante que adoptámos para os 2 dias que nos restavam destas férias. Aqui, o melhor menu de sushi das nossas vidas foi saboreado com especial requinte japonês. Ainda hoje sonho com aquele delicioso menu que apenas nos custou cerca de €8.

No bairro chique de Ginza, deleitámo-nos com as montras dos melhores costureiros mundiais (Chanel, Valentino, D&B, entre outros), e visitámos o Sony Building, pois claro. Aqui, jogámos na playstation 3, com o maior sorriso do mundo, e ficámos a saber que todo o exposto material electrónico tem um tempo de vida de 3 meses antes de passar a obsoleto e ser descontinuado (enviado para a Europa, portanto).
O Sif ainda aproveitou a viagem para visitar o museu da animação Ghibli mas a minha falta de tacto para a fantasia cinematográfica fez-me declinar o convite e aproveitar todo aquele tempo para me agarrar à já supracitada Playstation 3. Opções.

Na última noite apanhámos o metro para o outro lado do rio Sumida e fomos contemplar, pasmados, a baía de Tokyo, com a sua água serena a ser tocada pelas luzes coloridas dos arranha-céus adormecidos.

Quero voltar. Um dia, talvez...